Bem-vindos ao Cinema & Consciência, um novo espaço para a difusão e a discussão do cinema brasileiro e internacional. Vamos falar de filmes ou documentários, discutir ética e estética do cinema, com enfoque nas pessoas, nos temas e nos fatos. Os comentários dos visitantes serão sempre bem-vindos.

Todos os textos neste blog são de autoria de Mário Luna, salvo aqueles em que a fonte for mencionada.
Críticas construtivas e sugestões em geral, envie e-mail para este blogger: cinemaconsciencia@gmail.com

"Não acredite em nada que ler ou ouvir neste blog. Reflita. Tenha as suas próprias opiniões e conclusões"





quarta-feira, 25 de março de 2009

Documento Histórico em DVD

Em 1963, 5 meses antes do presidente John F. Kennedy ser assassinado, o governador do estado do Alabama, George Wallace, proibiu de entrar na Universidade do Alabama dois jovens negros, Vivian Malone e John Hood, um gesto claro da sua política de segregação racial. Nessa época ficaria famosa uma de suas frases mais polêmicas, "segregação agora e segregação sempre." Diante do seu veto à aplicação da política de direitos civis e anti-segregacionista do governo Kennedy, o governador entra em rota de colisão com o governo federal, dando início a uma crise, e acredito que derradeira sobre o assunto da segregação racial nos Estados Unidos, pois a Universidade do Alabama foi a última a vetar alunos negros em suas salas de aula.

O documentário de Robert Drew, Crise, que já havia rodado um antecedente sobre a campanha política de Kennedy à presidência americana em 1960, intitulado Primárias, volta a utilizar a inovadora técnica da camera direta - filmar as cenas com a camera no ombro, acompanhando tudo em tempo real - surpreende ao levar o espectador para dentro da Casa Branca, da residência de Robert Kennedy e do próprio governador do Alabama, George Wallace, numa clara demonstração do seu prestígio diante dos ícones do caso em questão.

Embora mais uma vez o filme se estruturasse no antagonismo entre duas forças políticas, com Crise Robert Drew conseguiu ser mais bem-sucedido no que diz respeito à construção de um clima dramático que vai crescendo rumo ao embate derradeiro. Se em Primárias o momento final (a votação e a apuração da eleição) era tratado com um enfoque mais frio e contemplativo do que o registro dos momentos de campanha, em Crise o espectador é envolvido pelo suspense, já que como o governador diz que vai barrar a entrada dos negros pessoalmente na porta da universidade, um clima de apreensão é notado no comportamento de todos, e ressaltado pela montagem e pela narração. Esse triunfo político de Drew teve por base um desafio estético e uma revolução tecnológica. Ex-veterano da Segunda Guerra e ex-repórter da “Life”, Drew foi um dos pioneiros a notar, em meados dos anos 1950, que havia algo de errado com o documentário americano, em cinema e em TV. A história estava na narração e não nas imagens.

A crise em questão não teve proporções imensas como no caso de Watergate e tampouco alcançou uma escala internacional como a da Guerra do Vietnam. O filme é sobre um problema de ordem doméstica. O diretor utilizou duas equipes nas filmagens. UMa em Washington, para acompanhar as reuniões de JFK com seus assessores, além de seguir os passos de Robert Kennedy, então procurador geral do Estado, que tentava encontrar uma solução pacífica para o caso. A segunda equipe foi ao Alabama, para acompanhar George Wallace, que prometia defender sua política segregacionista até os limites da sanidade, barrando ele mesmo os alunos na porta da universidade. No Alabama ainda havia Nicholas Katzenbach, procurador adjunto de Robert Kennedy, enviado ao local da contenda a fim de negociar diretamente com Wallace e, claro, os dois jovens candidatos a alunos, Vivian Malone e John Hood.

Crise demonstra uma evolução na técnica de se filmar documentários. A montagem cria um clima mais definido, um roteiro enxuto, interligando fatos ocorridos em Washington e no Alabama com muma precisão só vista em filmes de ficção. A boa sinergia entre cinegrafistas vista em Primárias, aquela p
ara qual dizemos que os caras tiveram muita sorte, segue redondo em Crise. Considerando que as equipes não sabiam o que uma estava filmando, a cena em que a filha de quatro anos de idade de Robert Kennedy toma o telefone do pai para falar com Katzenbahc no Alabama é digna de nota, pois a conversa da menina com o procurador serve de alívio naquele cume de tensão da história. A cena poderia ter sido muito bem escrita por um roteirista atento, mas não foi nada disso o que aconteceu. Tudo aquilo foi casual e real.




video

Um comentário:

  1. |Até hoje não acredito nas desculpas que George Wallace pediu aos líderes negros. Acho que ele estava coagido pelos acontecimentos que se sucediam nos Estados Unidos. Sem esquecer que ele ficou paralítico em virtude dos tiros disparados por homem branco.

    ResponderExcluir