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terça-feira, 24 de março de 2009

Amigo Para Quem Precisa de Amigo

Construir uma amizade verdadeira é uma tarefa cheia de mistérios.
Mas quando encontramos um amigo verdadeiro descobrimos que todo o mistério em fazer amigos de verdade está unicamente dentro de nós mesmos, e vemos que isso passa por nossa capacidade de reconhecer os verdadeiros amigos entre os falsos. Mas, claro, isso não é tão simples e possível sem uma boa dose de decepção, uma vez que esse reconhecimento requer discernimento, bom senso e sensibilidade. Uma amizade exige entendimento do outro, respeito e confiança, o que também é a tri-qualificação base para relacionamentos conjugais duradouros, pois quando tudo ligado ao sexo oposto termina, ou estanca por um tempo, ainda resta a amizade! O tema do filme de Leconte fala sobre a arte de se fazer amigos, mas sem receitas ! (e ele nem poderia oferecer isso). A obra está longe de servir como filme de auto-ajuda. É uma comédia desopilante e sincera, sem clichés e final previsível, e lida com algo muito comum a muitos hoje em dia, consumidos que estamos por dias tão ocupados pelo trabalho que a lucidez não escapa do concreto. O problema da falta de lucidez para enxergar o essencial é que continuamos a achar que o concreto é o essencial, e só sabemos que estamos equivocados quando o essencial ficou para trás. Quando a oportunidade de enriquecimento interior, através de uma boa e sincera amizade, passa bem à nossa frente sem que possamos vê-la, perdemos uma chance em mil de evoluirmos mais rápido, uma chance perdida que nos afastará do que, de fato, importa: as interrelações sadias.

Mas de que maneira poderíamos definir o que é ser "amigo de verdade" ? Ou o que significa simplesmente "ser amigo" ? Essas perguntas envolvem mais do que apenas conceitos de amigo, amizade etc. Implica em algo maior, como comunhão afetiva, cognitiva e sobretudo sentimental, pois quando tudo falta ao coração ainda resta o interesse numa conversa com algum tipo de comunicação eficaz. Essas complexidades do ser amigo devemos às características intrínsecas que formam o ser humano em geral. Claro que é bem mais fácil evoluir no topo de montanhas meditando dia e noite. Mas esse modelo humano não está interessado em grupocarmalogia. Quem quer abrir mão das dificuldades da vida diária, da convivência com a diversidade humana, tão rica em conteúdo ? Por alguma razão não muito clara entendemos que o segredo da evolução está em buscar companhias. Boas ou más elas acabam nos ensinando o que é certo e errado, e com alguma dose de discernimento caminhamos com mais segurança ao fim de um par de experiências mal sucedidas, na velha e boa técnica do vivendo e aprendendo.

No filme de Patrice Leconte vemos alguém que não consegue tirar os olhos do próprio umbigo, desviar a atenção das próprias necessidades, fugir do automatismo da vida diária, das atribulações do trabalho e muito lhe custa explorar as oportunidades de ser feliz, na companhia de amigos. François Coste (Daniel Auteuil) é um comerciante de antiguidades, que se dedica intensamente ao trabalho. No dia do seu aniversário sua sócia, Catherine (Julie Gayet) lhe diz que ele não possui amigos, com o que os demais presentes à mesa concordam. François nega e diz que tem vários amigos. Puro blefe. A discussão sobre os amigos de François gera uma aposta entre ele e a sócia: ele teria que apresentar num prazo de dez dias um "verdadeiro amigo," ou um "melhor amigo," caso contrário ele perderia um valioso vaso grego que ele acabara de comprar num leilão. A partir de então, François busca desesperadamente um "melhor amigo."Essa é, sem dúvida, a melhor parte da comédia.

François não se dá conta do quanto ele é workaholic, individualista, egoísta, arrogante, quase um autista, enfim, um grande mala para muita gente, que mal o suportando no ambiente de trabalho, imagine se o teriam como amigo! Seu universo é tão restrito à sua própria realidade tangível que ele mal sabe da realidade dos mais próximos, como a namorada, a parceira de trabalho, clientes etc. Contudo, motivado pela aposta com a sócia, François está disposto a causar uma reviravolta na sua vida a fim de conseguir o "melhor amigo." Essa onda de mudança ganha o contorno de uma bela reciclagem existencial. É interessante ver, por exemplo, como as coisas à sua volta conspiram para que ele encontre o amigo. Tudo parecer ajudar François nessa difícil tarefa.

O trabalho de Daniel Auteuil está mais uma vez impagável. Ele faz o cara mais adoravelmente chato do mundo! porque dá gosto ver um ótimo ator atuar, e também porque é quase impossível não nos unirmos à sua causa, por mais calculista que ele pareça no desenvolvimento das suas ações pró-amigo. Quando ele começa a buscar esse "melhor amigo" o filme passa mais rápido, o roteiro ganha asas, não por adotar uma nova técnica, mas pelo belo trabalho dos atores, todos muito bons, no ritmo (rápido) francês de fazer cinema. É interessante ver o despespero de alguém tentando fazer amizades intensas rapidamente, porque você acaba encontrando alguma relação com toda aquela patologia.

Sua chance de vencer a disputa surge juntamente com o motorista de táxi que o leva para todos os lados e que faz amigos com uma facilidade incrível. Bruno (Dany Boon) é naturalmente muito simpático. Ele ensina François a fazer amigos, apesar do aluno ser tão carente de qualidades para isso. A química entre os dois logo ganha as formas daquelas que os amigos compartilham e isso é um sinal acalentador. Inicialmente Bruno é apenas um professor, mas François percebe que ele é quem deve ser o seu "melhor amigo." Nesse ponto o filme ganha um tom mais sério e dramático e recebe um final mais ou menos apoteótico e rocambolesco, mas sem perder o brilho nem virar lugar-comum. Ao final, Leconte consegue causar a boa impressão por ter feito uma obra sobretudo humana, ou terá sido uma comédia humana ? Bem, qualquer uma das hipoteses é verdadeira.





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