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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Nunca é Tarde para Uma Reconciliação

O alto preço que se paga por uma reconciliação difícil mas irremediável é pelo raro valor dos seus benefícios. Atemporalmente tal investimento evolutivo não só põe fim às interprisões grupocármicas como propõe uma reciclagem existencial madura e definitiva

O filme de Andrey Zvyagintsev, O Retorno, é brilhante ao descrever a odisséia de um pai na busca da reconciliação com os dois filhos que há 12 anos ele deixou para trás. Esse é um daqueles filmes que surpreende por narrar com uma simplicidade assustadora um assunto extremamente complexo, como a reconciliação. E o investimento paterno na reconciliação envolve uma aventura numa ilha cercada pelas águas misteriosas de um lago.

Assistimos a tudo apenas como testemunhas dos fatos, se
m direito a maiores esclarecimentos. Simplesmente vivemos os acontecimentos passivos e silenciosos, até que nos vemos remando o bote de volta à terra firme junto com os garotos, esbaforido de cansaço e estupefato com o destino, numa daquelas situações em que achamos que a realidade perdeu totalmente o sentido.

O pai aqui é a figura do desconhecido, um homem de quem os garotos não se lembram, apesar das fotos da família 12 anos atrás. O pai aqui é também uma figura deslocada no tempo e no timing dos meninos e destituída de sua função por direito. Sua autoridade é imposta, fria, agressiva e caricata, e quando tenta ganhar contornos reais é duramente questionada. Numa das cenas mais fort
es do filme um dos filhos pergunta, " por que você voltou ?" E quando não expressa, essa mesma pergunta ecoa em cada cena em que os garotos estão na companhia do pai. Há igualmente que considerarmos que o filme discute o sentido da paternidade e a imagem do pai para os filhos. Por que alguns homens que, de caso pensado, optam por uma vida independente, deixando para trás mulher e filhos, pensam que a paternidade é um cargo vitalício ? E ao mesmo tempo em que a dupla de meninos reluta em aceitar esse novo homem em suas vidas, vindo do nada e impondo uma autoridade fora da validade, ela embarca nessa viagem com uma grande interrogação interior - é como dizer "queremos um pai, mas não conseguimos vê-lo nesse desconhecido."Ser pai não é uma condição vitalícia, conquistada com uma imposição biológica, mas uma condição que deve ser renovada sempre, continuamente, em parceria com a família.

A maternidade, por outro lado, tem elos físicos indeléveis, tão mais sérios quanto emocionalmente vulneráveis, pois desde o primeiro momento de vida a mãe cria um ligação vital com o filho. Depois de 12 anos, não podemos tomar a priori que um pai continua sendo pai no sentido sentimental da palavra e os laços biológicos não são suficientes para impor um retorno sem reconquistas. Essa é a grande dificuldade do pai no filme, pois ele, além do explícito mistério que envolve sua vida pessoal, não é do tipo amoroso e emocionalk, e isso deixa em aberto a lacuna mais carente dos meninos: a segurança paterna. A reconciliação aqui não se faz tão facilmente porque o valor de ser pai esbarra numa mágoa difícil de ser superada pelos filhos, e ainda mais improvavelmente com o menor, mais resistente e ferido com a ausência paterna. A seu modo, o pai segue na sua labuta familiar e porque não dizer existencial, dada a importância daquela reconciliação, tentando aparar as arestas deixadas com sua ausência. Mas ao seu modo concreto, frio, e incorporado numa negativa do seu passado longe da família, ele se perde numa realidade sem conexão com a dos filhos - ao ponto dos próprios filhos não entenderem o que ele pretende com aquela viagem. Tarde demais para ser pai ?
Dele não deve ser tirado os méritos deste esforço, pois a sua intenção é hígida. Ele quer reconciliar-se e faz por isso. Talvez estivesse fazendo muito mais do que sempre fez em outras situações da sua vida e naquele patamar seus sentimentos fossem os mais atualizados evolutivamente falando. Isso resume o sucesso da sua empreitada pessoal e notadamente ele dá, de fato, um passo a frente quando, ao final, se torna um mártir de si mesmo. A desafinidade é um tipo de afinidade negativa (p.66), coloca Málu Balona em seu excelente livro Autocura Através da Reconciliação. E ela continua, "desafeição é basicamente incomunicação. O outro não tem o código de acesso para a informação que está sendo transmitida, não raro devido à simples falta de experiência compatível (p.67)." Quando numa das cenas finais do filme o pai diz ao filho em fúria que ele estava equivocado e que não havia entendido a sua intenção (de pai), vemos claramente que a comunicação entre pai e filhos havia sido falha simplesmente pelo pai não falar a mesma linguagem dos filhos, obviamente pela falta da experiência familiar ao longo dos último 12 anos. Sobre isso, Laplanche & Pontalis (1970) coloca, "como não há ressonância, entendimento ou compreensão daquilo que está sendo comunicado, reivindicado ou reclamado," e aqui isso refere-se à condição do pai, "sentimos que, de ambas as partes, os nossos esforços não têm eco, que não valem apena, que estamos perdendo tempo. Surge a frustração e o ressentimento é retroalimentado."De forma condensada, o filme revela que o atraso do papel do pai na vida dos filhos traz suas conseqüências, e a mais significativa é através do medo de altura do menor. De maneira figurativa, ironicamente, ele supera esse medo a partir de uma experiência com o pai. O filme começa com uma experiência traumática: Ivan, o caçula, não consegue mergulhar do alto de uma torre de observação, ao contrário de todos os seus amigos e, inclusive, do seu irmão. Pior do que isso, ele não consegue descer de lá, até ser retirado pela mãe. Nas cenas finais, ele volta a subir numa torre de observação, desta vez fugindo do pai e ameaçando se jogar de lá. Adquire então uma força de vontade emblemática com a presença do pai, que, na verdade, de maneira descontrolada, faz extrapolar a coragem do filho. Essa cena simboliza exatamente o efeito maior do retorno do pai - uma grande interrogação, que pode ser também interpretada pelo desconhecimento mútuo de duas gerações de russos. Segundo o crítico Marcelo Hessel, a severidade do pai, proveniente de uma educação da antiga União Soviética totalitária, contrasta com o comportamento de uma geração que surge a partir dos anos 90, com ranços de abandono e que necessita de uma renovação humanista e solidária.

Entre essa grande pergunta sobre quem é esse homem até o que ele é capaz de fazer para recuperar o respeito dos filhos há uma lacuna quase impossível de ser preenchida. Quase impossível porque, quando queremos reconciliar de fato com alguém, ela, a reconciliação, de alguma forma, em algum momento, acontece.

Título em Português: O Retorno; Título Original: Vozvrashcheniye; Ano de Produção: 2003; País: Rússia; Duração: 105': Gênero: Drama; Direção: Andrey Zvyagintsev;
Site Oficial: http://www.cinema.com.hk/return.









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