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domingo, 11 de janeiro de 2009

Promessas Até Quando ?

A Faixa de Gaza é um território situado ao sul de Israel e ao norte do Egito. É a área do planeta mais densamente povoada, com 1,4 milhão de habitantes numa área de apenas 360 km². O novo Faixa de Gaza deriva do nome da sua principal cidade, Gaza.

A Faixa de gaza não é reconhecida internacionalmente como pertencente a um país específico. O espaço áereo e o acesso marítimo são atualmente controlados pelo Estado de Israel. A jurisdição, no entanto, é exercida pela Autoridade Nacional Palestina. É aqui que rivalidades, lutas e intolerâncias começam.

Por centenas de anos, o Império Otomano dominou Gaza, até que o território, junto com o restante da Palestina, passou para o controle dos britânicos, com o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Durante a primeira Guerra árabe-israelense, que levou à criação do Estado de Israel, Gaza absorveu um quarto das centenas de milhares dos refugiados palestinos expulsos das áreas que hoje fazem parte de Israel. As raízes mais remotas da luta armada entre árabes e israelenses datam de final do século XIX, quando colonos judeus começaram a migrar para a região, que nessa época, diga-se, tinha o domínio árabe. Como os judeus não tinham um estado próprio, tendo sempre sofrido várias perseguições, foram movidos pelo sionismo, um movimento (de patriação) com o objetivo de fundar na Palestina um Estado judeu, mesmo quando a Palestina já era habitada há séculos por uma maioria árabe.

Quando o Império Otomano foi derrotado na Primeira Guerra Mundial e a região ficou sob o controle britânico, mais judeus migraram para lá. Em 1947, a ONU propôs uma divisão de terras palestinas entre judeus e árabes baseada na distribuição populacional estabelecida então na região. Os judeus ficaram com 55% do território, considerando que 60% da área era no deserto do Neguev. De qualquer forma a população árabe não aceitou a criação de um Estado não-árabe na região e rejeitou a partilha. Quando em 1948 os britânicos deixaram a região, os judeus viram que era o momento de declará-la Estado de Israel, ampliando o conflito interno. Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque atacaram as terras do Estado de Israel. O Egito conseguiu assim a região da Faixa de Gaza e a Jordânia retomou as regiões da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, mas os árabes palestinos acabaram sem território.

Em 1964, a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, foi então criada sob a chefia de Yasser Arafat, como uma instituição política e paramilitar de palestinos, dedicada ao estabelecimento de um estado palestino independente. Inúmeros conflitos militares se sucederam na região desde então, mas a primeira intifada, revolta espontânea da população palestina, começou em 1987, num campo de refugiados no extremo norte da faixa de Gaza. As intifadas se tornaram comuns na região sempre que um conflito armado de Israel assaltava as áreas palestinas e consistiam em guerrear com paus e pedras os inimigos judeus, o que ocorre até os dias de hoje.

O filme do diretor judeu B. Z. Goldberg e Justine Shapiro retrata a história de sete crianças israelenses e palestinas que, vivendo em meio a guerras e ataques entre árabes e israelenses, e apesar de morarem na mesma região, experimentam mundos completamente distintintos e divididos. Com idade entre 8 e 13 anos, elas falam por si mesmas, descorrendo em relatos surpreendentes com uma lucidez sobre a guerra que impressiona e oferece uma nova e emocionante perspectiva de um conflito que parece sem fim.

Algumas curiosidades marcam o filme de B.Z. e Justine. Ele concorreu ao Oscar de Melhor Documentário, recebeu igual indicação no Independent Spirit Awards, ganhou o Emmy de Melhor Documentário e os prêmios do Público e do Júri no Festival Internacional de Cinema de São Paulo e foi exibido na Mostra Cinema & Realidade no Rio de Janeiro. Promessas de um Novo Mundo é um filme para ser visto, revisto e refletido. Neste exato momento em que o conflito faz árabes e israelenses se matarem pelo velho motivo da posse das terras "de ninguém." Terras de uma área que, diga-se, foi abandonada depois de recuperadas pelos judeus. Sem partidarismos, o filme empreende-se na tentativa de unir essas crianças por alguns momentos de paz.

O filme apresenta referenciais históricos e religiosos e, com enfoque na delicada questão árabe-israelense, não esconde uma abordagem geopolítica da região, visitando várias áreas populacionais entre Israel e a Palestina. O grupo dicotômico de crianças divide-se entre palestinos mulçumanos e israelenses judeus. Essa dicotomia entretanto revela dois lados de um conflito desproporcional. Enquanto o Estado de Israel surge como soberano, detentor do poder político e militar, exercendo sua territorialidade plena, os grupos de palestinos aparecem desterritorializados, expulsos do seu lugar de origem e alocados em campos de refugiados, estocados em comunidades cercadas pelo domínio israelense. As paisagens também se bipartem de forma assustadora: de um lado vemos sinais da modernidade nas cidades israelenses, com prédios e contruções em geral futurísitcas e espaciais, ao estilo industrial-ocidental das metrópoles capitalistas; de outro, testemunhamos a precariedade de edifícios surrados e precários, em bairros pobres e argilosos, numa região de imagem árida e áspera.

O filme, na verdade, mostra que a fragmentação territorial vai muito além da Faixa de Gaza e da área que compreende a Cisjordânia e revela-se num contexto complexo dentro do próprio Estado de Israel. Justamente por isso, Jerusalem é considerada pela ONU uma área internacional - o que, ao mesmo tempo, cria-se uma extraterritorialidade comprometida, uma vez que Israel não só controla a área de Jerusalém como tira dos palestinos o direito de ir e vir, impossibilitando-os de visitarem os próprios templos em Israel. A impressão que se tem é que os palestinos ocupam áreas sem o domínio sobre elas e essa descontinuidade territorial implica num controle opressor por parte dos israelenses. Aos palestinos falta a gestão do seu espaço. Seria o mesmo que comprarmos um apartamento com nosso próprio dinheiro e deixar com que a imobiliária o controle.

No filme, as crianças argumentam sobre a defesa de suas terras, evocando questões religiosas baseadas na Tora e no Alcorão. "Nos países do Islã a primeira educação é a religiosa," diz Marc Ferro, autor de A Manipulação da História no Ensino e Nos Meios de Comuncação. Enfim, o documentário nos traz uma informação muito rica para compreendermos a razão de um conflito milenar - por mais ilógico, cruel e absurdo que ele pareça nos dias de hoje.

Como propriamente nos mostra as crianças, a questão é complexa e há razão e injustiças de ambos os lados. Fica como exercício de casa, a reflexão universal da razão dos conflitos religiosos e também daqueles promovidos por pontos de vista históricos e geopolíticos divergentes, numa demonstração clara que, ao longo da história, não mudamos muito e, no final das contas, perde sempre aquele que ainda nada sabe sobre nada, não tem qualquer noção pela pouca idade e muitos por nem sequer terem aprendido a andar ou a falar. Ou seja, perdem todas as crianças de ambos os lados.




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