Bem-vindos ao Cinema & Consciência, um novo espaço para a difusão e a discussão do cinema brasileiro e internacional. Vamos falar de filmes ou documentários, discutir ética e estética do cinema, com enfoque nas pessoas, nos temas e nos fatos. Os comentários dos visitantes serão sempre bem-vindos.

Todos os textos neste blog são de autoria de Mário Luna, salvo aqueles em que a fonte for mencionada.
Críticas construtivas e sugestões em geral, envie e-mail para este blogger: cinemaconsciencia@gmail.com

"Não acredite em nada que ler ou ouvir neste blog. Reflita. Tenha as suas próprias opiniões e conclusões"





quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Sensibilidade e Grupalidade

Nome: Nenhum a Menos; Nome Original: Yi Ge Dou Bu Neng Shao; Lançamento: 1999; País: China; Diretor: Zhang Yimou; Produção: Columbia Pictures Asia; Duração: 100min.

O filme de Zhang Yimou é sobre a evasão escolar em regiões pobres do interior da China. Tudo começa quando o professor da escola tira uma licença para cuidar de sua mãe. Em seu lugar, a prefeitura coloca uma garota de 13 anos, Wei (Wei Minzhi). Ela terá que morar na própria escola durante um mês, junto com alguns dos 28 alunos, até o mestre retorne. Sua missão é garantir que nenhum deles abandone a escola. Por ser muito jovem e sem qualquer experiência anterior em ensino, Wei não sabe o que ensinar, além de um par de canções, pois ela não terminou os estudos da escola primária. Sua tarefa é copiar no quadro a matéria já preparada, fazer a chamada religiosamente a cada novo dia e passar para os alunos os deveres das lições escritas no quadro negro. Sem se preocupar muito se eles realmente estão aprendendo, ela só quer que eles não abandonem o curso e saiam da escola. Tamanha é a pobreza do local, que a garota só dispõe de um giz para cada dia de aula. Ninguém possui livros e as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. Motivada por um pagamento de 50 yuans ao final do período de recesso do professor Gao (Gao Enman), caso nenhum deles deixe a escola fixada num vilarejo no interior da China, a garota professora tem a determinação de manter os alunos na escola. No entanto, mal a garota começa o seu trabalho, uma pequena aluna é convidada a ingressar numa escola de desporto e, quase de imediato, Huike (Zhang Huike), a criança mais difícil para ela, é obrigado a ir trabalhar na cidade, pois vive só com a mãe, que está doente e imersa em dívidas. Wei recusa-se a perder outro aluno e junto com os demais alunos passa a criar maneiras de levantar fundos para a viagem à metrópole. Após algumas mal suicedidas tentativas, ela decide partir sozinha a pé e depois de carona, até que, finalmente, chega ao cenário onde deveria encontrar Huike. Uma série surpreendente de descaminhos afastam Wei de Huike na grande cidade, até que, com uma obstinação inumana, ela tem a oportunidade de ficar de frente para as cameras num programa popular de televisão e é assistida por Huike, fazendo o contato e conseqüente resgate do aluno até então perdido.

Famoso por seu filme "Lanternas Vermelhas," nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1992, e ganhador de vários prêmios internacionais por seus filmes, a obra de Zhang Yimou imerge num realismo com um estilo quase documental, que começa pela escolha de um elenco formado por atores amadores, cujos nomes de suas personagens no filme sao os mesmos que possuem na vida real, até a maneira como a sua camera observa a estória, movimentando-se como um observador imparcial dos acontecimentos, sobretudo quando Wei procura Huike pelas ruas da cidade garnde. O tratamento adotado pelo diretor, de deixar a camera ligada sem cortes, intensifica a carga dramática da garota perdida sem ter para onde ir, desnorteada perguntando a um e a outro se ele ela o diretor da emissora de televisão. Yimou filmou essas cenas com muito despojamento, uma prática do neo-realismo italiano e dos filmes iranianos recentes. Essa simplicidade resultou num realismo emocionalmente intenso e envolvente.

Outra particularidade marcante no estilo dessa obra de Yimou podemos ver na maneira como ele trabalha a sonoplastia. Nenhuma a Menos está quase despido de música. Os sons que ouvimos são vozes, diálogos, ruídos do campo, sons da natureza, vento, barulho de trânsito... A música, entretanto, não está totalmente ausente. Algumas peças assinadas por San Bao marcam intensidade alguns momentos dramaticamente relevantes no filme, sobretudo a última cena, no desfecho feliz da estória.

Apesar de apresentar um final feliz para o contexto da estória, o filme retrata a triste condição da evasão escolar nas regiões agrárias mais pobres da China, o que ainda hoje se constitui um problema real. A exploração de crianças expõe igualmente o lado negativo de uma sociedade acostumada às diferenças sociais e à indiferença política ao problema. O filme mostra que, aproximadamente, um milhão de crianças chinezas largam a escola todos os anos para trabalhar. Como aconteceu em outros filmes de Yimou, a abordagem político-social não levantaram problemas com as rígidas autoridades chinesas. Entretanto, quando ofilme foi excluído da seleção oficial do Festival de Cannes, em 1999, e inserido na "Classe Alternativa," ou "A Certain Regard," o diretor viu nisso um certo preconceito. "Parece que no Ocidente existem sempre dois critérios na interpretação de filmes chineses: ou eles são anti-governo ou representam propaganda governamental. Isto não é aceitável," disse Yimou. Foi assim que o diretor optou por retirar seus dois filmes desta edição do festival.

Nesta bela obra, Yimou, de cujos filmes sou fã confesso, traz uma bela mensagem de grupalidade, e, embora agregada ao velho jargão do "unidos venceremos," ainda não se descobriu outra maneira de se privilegiar o contexto de se fazer as coisas em grupo e se ganhar com isso de várias maneiras. Seja pela sociabilização, pela assistência grupal, pelo exercício da afetividade, fraternidade, pelo universalismo, pela pluralidade de comportamento, trabalhar em, com ou pelo grupo ainda é o melhor caminho para se evoluir por atacado.


video





Nenhum comentário:

Postar um comentário