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domingo, 14 de junho de 2009

Você é Feliz ?

O cineasta e etnólogo Jean Rouch e o sociólogo Edgar Morin saem às ruas de Paris para colher respostas à seguinte pergunta: "Você é Feliz ?"
O resultado desse documentário, um dos precursores do cinema-verdade, juntamente com os trabalhos Primárias e Crise do americano Robert Drew, mostra um retrato interessante dos jovens em 1960, ano de realização da obra. Sempre é muito rica toda informação que vem diretamente das pessoas comuns, na rua, enquanto vão e vem de destinos e bem no meio das suas ações diárias. Se toda teoria pudesse trazer um exemplo através de uma casuística pessoal, ela seria imediatamente aceita, pois, contra fatos não há argumentos. Rouch realizou trabalhos igualmente ricos em conteúdo que se tornaram grandes sucesos no cinema, como "Jaguar," "Eu Um Negro," "Pouco a Pouco," e "A Pirâmide Humana,"e figurou em várias listas pessoais dos dez melhores filmes franceses, lançados a partir do pós-guerra, publicados no Cahiers du Cinéma, em janeiro de 1965. Sua obra lhe valeu a fama de antropólogo, sobre o que ele diz "muitos dizem que, como cineasta, sou um bom antropólogo, e como antropólogo, sou um bom cineasta." De fato, Jean Rouch é formado em engenharia civil pela renomada École de Commerce francesa, título que lhe daria um bom emprego em qualquer empresa famosa. Mas ele preferiu colocar a camera no ombro e ir à luta pela semiótica. Desta vez, seu par foi nada menos do que o igualmente famoso Edgar Morin, sociólogo que conduziu os entrevistados em Crônica de Um Verão. O amálgama humano entrega um material para qualquer sociólogo ficar de bem com a vida. O que parecia uma simples e despretenciosa enquete se transforma numa rara coleta de informações fiéis sobre a natureza humana diante da conceito de felicidade. Ambos precognizam que o espectador irá se pergunta ao final do filme: "O que faço da minha vida ?" Boa reflexão.


O cinema verdade nasceu em Crônica de Um Verão. Com equipamentos de filmagem leves e portáteis, os cineastas promovem uma inovação radical nas técnicas de filmagem. Saem nas ruas sem nem ao menos terem certeza sobre o que vão perguntar às pessoas além da pergunta-chave. Aliaram a isso o método de Flaherty e as teorias de Vertov e a empreitada não só estendeu os limites da exposição da realidade do cotidiano humano como abriu as portas para o que hoje conhecemos como reality show. No campo da Sociologia, a participação de Morin enriquece a informação. Não seria justo afirmar que o filme busca, a partir dos depoimentos dos participantes, apenas mostrar os acontecimentos históricos que se desenrolaram no contexto socioeconômico, político e cultural francês daquela época. Ele vai além disso. A dinâmica de trabalho da dupla funciona como peças de Lego. Eles montam um grupo heterogêneo de pessoas que, primeiro individualmente, depois agrupadas, dão seus depoimentos e trocam experiências valiosas, modificando seus olhares sobre o outro e sobre si mesmo.

Mesmo numa obra fundada sob um modelo chamado cinema-verdade, fica difícil saber ao certo os limites da verdade. Mas tampouco faz sentido analisar aqui se os entrevistados estão sendo sinceros ou não, uma vez que não sabemos ao certo quando utilizamos recursos da ficção em nossas atuações diárias. Posso aqui enumerar facilmente algumas facetas de caráter que me deixam longe de mim mesmo. Numa das cenas iniciais do filme, Marceline diz que não ficará à vontade diante da camera. Isso por si só já é um recurso de ficção: ela atuará. Pelo menos até que se sinta bem para ser ela mesma. Os diretores têm consciência de que a camera irá modificar as relações das pessoas que estão na sua presença. Eles sugeriram que os personagens falassem à câmera de suas experiências captando fragmentos daquelas realidades. Para ilustrar a ficção no nosso comportamento diário podemos usar a seguinte analogia. Responder a tal pergunta diante do espelho traz um resultado particular. Mas a mesma pergunta respondida diante de uma camera, trará outro, assim como será outro o resultado da mesma pergunta respondida a um colega íntimo num bate-papo descontraído. Em que momento estamos sendo nós mesmos e em que momentos estamos atuando ?


A pergunta "Você é Feliz ?," que acompanha o filme, acaba sendo respondida pelo espectador inevitavelmente sugestionado. Mas o que é a felicidade ? Na minha opinião, um estado perene, próprio da essência humana, sobre o qual todas as tristezas se tornam curáveis.


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