
O filme O Escafandro e a Borboleta, do diretor francês Julian Schnabel, narra cruamente a estória de um paciente com uma síndrome de encarceramento provocada por derrame cerebral, que lhe deixou apenas a visão do olho esquerdo. Totalmente paralisado, é com ele que Jean Dominique tenta restabelecer seu contato com o mundo e através da sua única visão passamos a primeira meia hora de filme tão paralisados quanto o personagem. Não há nenhum outro angulo para olhar o mundo, nenhum movimento para mudar a perspectiva, nenhuma opção de comando. A imagem é uma só, turva e repetitiva. Angustiante, mas extremamente educador.
Aliás, o filme acaba por promover uma grande celebração da vida. É possível reciclar valores ao viver a única comunicação que Jean Dominique tem com o mundo à sua volta, e esta reciclagem nos faz admitir: quando perdemos qualquer uma de nossas faculdades físicas, sabemos o quão importante e essenciais elas são para viver. Os pensamentos de Jean são partilhados com o público e revelam um homem de bem com a vida, inteligente, sagaz e de grande tenacidade. Essa fome de viver resiste ao escanfandro em que ele se meteu após o derrame. Ele encontra uma borboleta para fazer seus sonhos bater asas. Nesse momento, a estória é simplesmente sublime. É também mágica a forma como descobrimos a gênesis das idéias de Jean brotando do vazio, do seu claustro particular e do seu aparente mundo vegetativo. Mais do que uma luz no fim do túnel, vemos uma luz refletindo sua alma, tão viva quanto ele era antes do acidente. Essa vida não-física permanece latente, produtiva e surge com uma força tão intensa que seu exemplo nos enche de (justamente) vida!
Por meio de um código criado com a enfermeira, Jean dá vida a um livro narrando seu drama. Com o piscar dos olhos ele codifica palavras, frases e parágrafos. Acompanhamos esse trabalho árduo, mas libertador. Suas idéias são colocadas no papel e cada frase criada é como um açoite para nós que gozamos de todas as possibilidades físicas e mentais para produzir obras e simplesmente deixamos todas em completa negligência, omitimos informações e gratuitamente nos subvalorizamos. Não há como passar ileso depois de asssitir a estória de Jean Dominique. É possível encontrar a essência da vida quando o mundo estiver restrito apenas a uma visão do olho esquerdo. Isso é válido para todo tipo de deficiência que a priori nos causa piedade. É impressionante como o deficiente pode adentrar um universo interior e encontrar lá uma energia tão assustadoramente forte e capaz de mantê-lo talvez mais vivo dos que muitos que gozam de todas as suas faculdades físicas e mentais. O Escafandro e A Borboleta é um filme para causar reciclagem. Se não, é possível que você não esteja usando bem seus dois olhos.