Bem-vindos ao Cinema & Consciência, um novo espaço para a difusão e a discussão do cinema brasileiro e internacional. Vamos falar de filmes ou documentários, discutir ética e estética do cinema, com enfoque nas pessoas, nos temas e nos fatos. Os comentários dos visitantes serão sempre bem-vindos.

Todos os textos neste blog são de autoria de Mário Luna, salvo aqueles em que a fonte for mencionada.
Críticas construtivas e sugestões em geral, envie e-mail para este blogger: cinemaconsciencia@gmail.com

"Não acredite em nada que ler ou ouvir neste blog. Reflita. Tenha as suas próprias opiniões e conclusões"





domingo, 11 de janeiro de 2009

Promessas Até Quando ?

A Faixa de Gaza é um território situado ao sul de Israel e ao norte do Egito. É a área do planeta mais densamente povoada, com 1,4 milhão de habitantes numa área de apenas 360 km². O novo Faixa de Gaza deriva do nome da sua principal cidade, Gaza.

A Faixa de gaza não é reconhecida internacionalmente como pertencente a um país específico. O espaço áereo e o acesso marítimo são atualmente controlados pelo Estado de Israel. A jurisdição, no entanto, é exercida pela Autoridade Nacional Palestina. É aqui que rivalidades, lutas e intolerâncias começam.

Por centenas de anos, o Império Otomano dominou Gaza, até que o território, junto com o restante da Palestina, passou para o controle dos britânicos, com o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Durante a primeira Guerra árabe-israelense, que levou à criação do Estado de Israel, Gaza absorveu um quarto das centenas de milhares dos refugiados palestinos expulsos das áreas que hoje fazem parte de Israel. As raízes mais remotas da luta armada entre árabes e israelenses datam de final do século XIX, quando colonos judeus começaram a migrar para a região, que nessa época, diga-se, tinha o domínio árabe. Como os judeus não tinham um estado próprio, tendo sempre sofrido várias perseguições, foram movidos pelo sionismo, um movimento (de patriação) com o objetivo de fundar na Palestina um Estado judeu, mesmo quando a Palestina já era habitada há séculos por uma maioria árabe.

Quando o Império Otomano foi derrotado na Primeira Guerra Mundial e a região ficou sob o controle britânico, mais judeus migraram para lá. Em 1947, a ONU propôs uma divisão de terras palestinas entre judeus e árabes baseada na distribuição populacional estabelecida então na região. Os judeus ficaram com 55% do território, considerando que 60% da área era no deserto do Neguev. De qualquer forma a população árabe não aceitou a criação de um Estado não-árabe na região e rejeitou a partilha. Quando em 1948 os britânicos deixaram a região, os judeus viram que era o momento de declará-la Estado de Israel, ampliando o conflito interno. Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque atacaram as terras do Estado de Israel. O Egito conseguiu assim a região da Faixa de Gaza e a Jordânia retomou as regiões da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, mas os árabes palestinos acabaram sem território.

Em 1964, a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, foi então criada sob a chefia de Yasser Arafat, como uma instituição política e paramilitar de palestinos, dedicada ao estabelecimento de um estado palestino independente. Inúmeros conflitos militares se sucederam na região desde então, mas a primeira intifada, revolta espontânea da população palestina, começou em 1987, num campo de refugiados no extremo norte da faixa de Gaza. As intifadas se tornaram comuns na região sempre que um conflito armado de Israel assaltava as áreas palestinas e consistiam em guerrear com paus e pedras os inimigos judeus, o que ocorre até os dias de hoje.

O filme do diretor judeu B. Z. Goldberg e Justine Shapiro retrata a história de sete crianças israelenses e palestinas que, vivendo em meio a guerras e ataques entre árabes e israelenses, e apesar de morarem na mesma região, experimentam mundos completamente distintintos e divididos. Com idade entre 8 e 13 anos, elas falam por si mesmas, descorrendo em relatos surpreendentes com uma lucidez sobre a guerra que impressiona e oferece uma nova e emocionante perspectiva de um conflito que parece sem fim.

Algumas curiosidades marcam o filme de B.Z. e Justine. Ele concorreu ao Oscar de Melhor Documentário, recebeu igual indicação no Independent Spirit Awards, ganhou o Emmy de Melhor Documentário e os prêmios do Público e do Júri no Festival Internacional de Cinema de São Paulo e foi exibido na Mostra Cinema & Realidade no Rio de Janeiro. Promessas de um Novo Mundo é um filme para ser visto, revisto e refletido. Neste exato momento em que o conflito faz árabes e israelenses se matarem pelo velho motivo da posse das terras "de ninguém." Terras de uma área que, diga-se, foi abandonada depois de recuperadas pelos judeus. Sem partidarismos, o filme empreende-se na tentativa de unir essas crianças por alguns momentos de paz.

O filme apresenta referenciais históricos e religiosos e, com enfoque na delicada questão árabe-israelense, não esconde uma abordagem geopolítica da região, visitando várias áreas populacionais entre Israel e a Palestina. O grupo dicotômico de crianças divide-se entre palestinos mulçumanos e israelenses judeus. Essa dicotomia entretanto revela dois lados de um conflito desproporcional. Enquanto o Estado de Israel surge como soberano, detentor do poder político e militar, exercendo sua territorialidade plena, os grupos de palestinos aparecem desterritorializados, expulsos do seu lugar de origem e alocados em campos de refugiados, estocados em comunidades cercadas pelo domínio israelense. As paisagens também se bipartem de forma assustadora: de um lado vemos sinais da modernidade nas cidades israelenses, com prédios e contruções em geral futurísitcas e espaciais, ao estilo industrial-ocidental das metrópoles capitalistas; de outro, testemunhamos a precariedade de edifícios surrados e precários, em bairros pobres e argilosos, numa região de imagem árida e áspera.

O filme, na verdade, mostra que a fragmentação territorial vai muito além da Faixa de Gaza e da área que compreende a Cisjordânia e revela-se num contexto complexo dentro do próprio Estado de Israel. Justamente por isso, Jerusalem é considerada pela ONU uma área internacional - o que, ao mesmo tempo, cria-se uma extraterritorialidade comprometida, uma vez que Israel não só controla a área de Jerusalém como tira dos palestinos o direito de ir e vir, impossibilitando-os de visitarem os próprios templos em Israel. A impressão que se tem é que os palestinos ocupam áreas sem o domínio sobre elas e essa descontinuidade territorial implica num controle opressor por parte dos israelenses. Aos palestinos falta a gestão do seu espaço. Seria o mesmo que comprarmos um apartamento com nosso próprio dinheiro e deixar com que a imobiliária o controle.

No filme, as crianças argumentam sobre a defesa de suas terras, evocando questões religiosas baseadas na Tora e no Alcorão. "Nos países do Islã a primeira educação é a religiosa," diz Marc Ferro, autor de A Manipulação da História no Ensino e Nos Meios de Comuncação. Enfim, o documentário nos traz uma informação muito rica para compreendermos a razão de um conflito milenar - por mais ilógico, cruel e absurdo que ele pareça nos dias de hoje.

Como propriamente nos mostra as crianças, a questão é complexa e há razão e injustiças de ambos os lados. Fica como exercício de casa, a reflexão universal da razão dos conflitos religiosos e também daqueles promovidos por pontos de vista históricos e geopolíticos divergentes, numa demonstração clara que, ao longo da história, não mudamos muito e, no final das contas, perde sempre aquele que ainda nada sabe sobre nada, não tem qualquer noção pela pouca idade e muitos por nem sequer terem aprendido a andar ou a falar. Ou seja, perdem todas as crianças de ambos os lados.




video

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Os Curdos Agora Podem Voar

Título em Português: Tartarugas Podem Voar; Título em Inglês: Turtles Can Fly; Título Original: Lakposhtha Hâm Parvaz Mikonad; Diretor: Bahman Ghobadi; País: Curdistão/Irã; Duração: 98 min.; Gênero: Drama; Ano: 2004.

Com um título metafórico que pode sugerir o sonho volátil para os que se encontram agarrados ao chão com um grande peso nas costas, o filme de Ghobadi nos reserva bons momentos de reflexão, quando os créditos surgem na tela logo após a última cena.

O Curdistão, na verdade, nunca existiu, não chegou a ver a sua identidade reconhecida, não criou até hoje uma forte e duradoura base política e tampouco se organizou como nação. O resultado reflete o caráter nômade de um povo tribal, espalhado por áreas retalhadas, distribuídas entre o Iraque, o Irã e a Turquia, vivendo como estrangeiros exilados em terras que, inacreditavelmente, sempre foram suas. A triste situação sócio-política dos curdos traz em sua história os inúmeros embates com o governo iraquiano, que não os popou de verdadeiras atrocidades cometidas após a invasão do Kuwait. Do lado iraniano, a história curda não é menos cruel, com aldeias miseráveis e abandonadas, o que se repete no lado turco, com miséria semelhante e uma forte presença militar conjugada com as permanentes queixas curdas de uma realidade bizarra e para lá de desesperançosa. O diretor iraniano Bahman Ghobadi retrata a dura sorte do povo curdo no mundo árabe justamente num pobre acampamento para refugiados no lado iraquiano, alguns dias antes da guerra do Iraque com os Estados Unidos.

Numa história recente, os curdos foram as presas preferidas do ex-ditador Saddam Hussein e, sobretudo, do seu primo, "o químico," Ali Hassan Al-Majid. Depois que, em 1986, vastas áreas da região curda foram libertadas do controle do governo central, fortes pressões passaram a perturbar o governo iraquiano em razão da guerra com o Irã. Por conta disso, entre 1987 e 1989, chefiados por Ali Hassan, "o químico," vários ataques foram lançados contra os curdos no norte do país, com destaque para o bombardeio com gases tóxicos sobre o povoado de Halabja, norte do Iraque, que deixou 5.000 mortos.
Com o nome de uma sura, ou capítulo do Corão, que significa "Espólios", a Anfal consistiu em bombardeios sistemáticos e ataques com gases tóxicos praticados contra diversas partes da região autônoma do Curdistão em 1988. No centro de uma guerra étnica, os curdos foram combatidos, renegados e abandonados em campos de refugiados espalhados pelo país.

Tartarugas Podem Voar é um filme sobre os curdos que restaram no Iraque depois que Saddam Hussein os perseguiu ferozmente. É também um filme sobre seres humanos sobreviventes de um genocídio implacável e irracional, sobre pessoas que acordaram no meio da noite a pauladas e foram expulsas de suas casas sem maiores explicações. Muitos foram mortos ou mutilados. Mulheres adultas ou crianças foram estupradas por soldados e não sobrou classe que não tivesse sofrido alguma perda irreparável. No campo de refugiados, a vida se refaz sem uma ordem linear. As crianças dispõem a força de trabalho mais importante e necessária para reconstruir o que podemos chamar de área de sobrevivência, desmontando minas ou instalando antenas parabólicas para que todos vejam o país se preparando para mais uma guerra, desta vez contra os americanos.

Nesse cenário apocalíptico, mas também de reconstrução e esperança, conhecemos Henkov, que consegue ver o futuro, um adolescente de 14 anos, e sua irmã, Agrin, de 12 anos. Eles trazem uma criança pequena com eles, portadora de deficiência física. Com o desenrolar da história, o passado desses três pequenos vai sendo desvendado e o sentimento de humanidade vai se mostrando cada vez mais distantes dos próprios homens. Para Agrin, o sentimento da perda material, aqui da família, e as feridas psicológicas do passado, aqui a perda da inocência, são traumas que não serão curados e sua história pessoal ganha contornos de desespero e total desesperança. Ela protagoniza os momentos mais chocantes e comoventes do filme.

Em meio a esse caos pessoal de Agrin e sua relação com a realidade do acampamento, entra a figura de Satellite, assim conhecido nas redondezas por sua habilidade na instalação de antenas. Entre as crianças, ele é um dos mais velhos no acampamento, com seus treze anos, e ocupa uma posição de liderança. É ele que comanda seus trabalhos – eles ganham dinheiro recolhendo minas ativas da região para revendê-las – e, ao mesmo tempo, ensina aos mais velhos a mexer com o aparelho de televisão. Até por ser o único com algum conhecimento de inglês, ele ganha destaque em todas as atividades do acampamento e, assim, com sua enfeitada bicicleta, ele vai levando a vida.

A realidade desses meninos é relatada no filme de forma brilhante. São crianças que tentam sobreviver como podem, desarmando minas para serem vendidas em mercados de rua, onde qualquer um pode conseguir armas de guerra. O filme não apresenta de forma clara nenhum tipo de posicionamento político quanto à questão, mas dá rosto a indivíduos que costumamos pensar como uma massa humana abstrata; mostra a dura realidade dos dias de um povo que sofre para sobreviver em meio a uma guerra injusta, em que seu inimigo está mais bem preparado tanto fica como psicologicamente.

O filme também apresenta a peculiaridade de ter no elenco crianças curdas refugiadas na vida real. Isso faz com que os pequenos atores interpretem de forma grandiosa suas personagens, transmitindo toda a força daquela realidade, muitas vezes apenas com o olhar, posto que têm vivido na pele aquilo que estão representando e reproduzindo. Este foi o primeiro filme feito no Iraque após a queda de Saddam Hussein, abrindo cada vez mais espaço para o cinema próprio dos curdos ao expor sua cultura e sua língua para uma platéia internacional, com um belo cenário e fabulosa trilha sonora. Não à toa, foi ganhador de diversos prêmios internacionais de grande importância, sendo mais um filme de Ghobadi com esta temática.








video

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um Documentário que Impressiona

A ponte Golden Gate, que cruza a baía de São Francisco, nos Estados Unidos, é um conhecido ponto turístico americano. Mas é também o lugar do mundo com maior índice de suicídios.

O diretor Eric Steel registrou cenas desses derradeiros atos de vida e trasnformou isso num documentário para lá de impressionante. A câmera ficou posicionada diariamente, durante todo o ano de 2004, para que os casos fossem registrados, e a partir de cada um deles, o diretor foi em busca da história de vida daqueles que haviam terminados seus dias nas águas, aos pés da ponte. Tão impressionante quanto essas cenas foi saber que, no filme, não conseguimos definir, a partir das entrevistas, um perfil suicida para as vítimas. Dos depoimentos de familiares, amigos e colegas de bairro, não tiramos aquela velha idéia de que o suicida é um ser desprezado, sozinho e desamado por todos. Ao contrário, vemos criaturas vivendo em comunidade, inteligentes, socialmente privilegiadas, que contaram com parentes e amigos até o dia apocalíptico.

Isso mostra claramente que os universos intra e extrafísicos se entrelaçam, mas não se confundem jamais. O que vemos no exterior não é a realidade interior dos suicidas, e que o amor, o carinho e a atenção não salvam o que já está negativamente condicionado por natureza. Ninguém muda ninguém se o indivíduo não quer ser ajudado. E matenho minha convicção sobre uma espécie de natureza suicida e no documentário essa idéia reforça-se a partir dos depoimentos e da realidade dos desafortunados. O filme registra mais de 20 suicídios na ponte, em 2004. Na rotina de pedestres e carros, vemos transeuntes vagando, perdidos, ora fitando a água lá embaixo ora parados e pensativos, até que o ato de se jogar é consumado.

O mais angustiante é ver que o desespero que levaram todas aquelas pessoas a arremessar na água a própria vida não terminará quando a morte física acontecer. Se naquele momento em que elas estavam no alto da ponte apenas fitando a água lá embaixo elas tivessem falado pelo celular com alguém que pudesse ter lhes advertido sobre a realidade extrafísica que iriam encontrar, e se, por um segundo apenas, algum vislumbre de lucidez tivesse lhes clareado o discernimento, suas vidas teriam sido salvas. O conceito de vida unidimensional é a maior evidência da ignorânica existencial. O suicídio é a pior escolha de morte e ele ocorre no baixo nível de lucidez que temos da vida multidimensional, no extremo das nossas vulnerabilidades emocionais, no despespero existencial incontrolável e por efeito direto das interelações patológicas pluriexistenciais. Para vencer essa natureza suicida é preciso o emprego de uma vontade inquebrantável na atualização da nossa história consciencial particular, construída ao longo das séries de vivências físicas, através de reciclagens existenciais que não tornem a realidade ao redor uma constante ameaça à nossa felicidade nem uma ferida há muito tempo exposta. Se aprendemos com os nossos erros, então é preciso uma constante recuperação de lucidez para percerber tais erros do passado e suas sequelas emocionais. Até que isso ocorra, muitos voltaram à ponte enquanto ela existir. Caracterizando o perfil suicída temos uma consciência letomaníaca, somatofóbica, auto-homicida, com um profundo sentimento de vazio existencial, que o acompanha por toda uma vida e além dela, na fase extrafísica, o que é pior, pois ela carrega uma espécie de sentimento indelével sob qualquer circunstância de vida. No suicídio acreditamos que os traços fardos são maiores do que os fortes, acreditamos mais na derrota e nos fracassos. "O suicídio é aquela situação na qual a solução é o problema maior," Waldo Vieira.


video

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Inocência Fatal

Título: O Menino do Pijama Listrado; Título Original: The Boy in the Striped Pajamas; Ano: 2008; País: Inglaterra/EUA; Duração: 95 min.; Gênero: Drama.

A família de um oficial nazista muda-se para o campo durante a Segunda Guerra Mundial. Bruno, o filho do casal, é um menino de 8 anos e solitário, não tem com quem brincar. A falta do que fazer é motivo suficiente para qualquer menino começar a pensar em explorações e novas descobertas e com Bruno não foi diferente. A casa, cravada no campo, tinha inúmeros lugares que deviam ser evitados por Bruno. A chamada "fazenda," que o menino avistou do seu quarto, era um deles. Mas toda advertência dos pais tornava-se um desafio maior para sua exploração eminente e ele acaba por descobrir uma passagem pelos fundos da casa que o levaria à floresta. Nas suas andanças, ele encontra Schmuel, um menino vestido com um pijama listrado, num terreno cercado por arames farpados, e, apesar de viverem realidades diametralmente opostas, entre os dois nasce uma grande amizade que mais tarde se tornará a chave de todo o drama de O Menino do Pijama Listrado, um filme que traz um olhar inédito para o Holocausto.

Mark Hermam, o diretor, foi completista na sua intenção de comover, chocar, aturdir, enfim, sensiblizar o espectador para mais um lado aterrador da guerra, agora na ótica de uma criança, ou melhor duas, com uma história que surpreende por mais que o final seja precognizado no decorrer da própria história. Diria que é um desses filmes onde, apesar de sabermos o que vai acontecer, mesmo assim, quando o fato enfim acontece, não evitamos o choque e a tensão. Isso é sinal de um roteiro sincero, sem firulas, forte por si só e que é bem sucedido justamente por ser cru, honesto, sem romantismos e infantilismos piegas. A guerra foi isso e, claro, muito mais. Tenho lido algumas críticas onde reclama-se da falta de maior conteúdo histórico sobre o Holocausto, de um roteiro mais verdadeiro quanto aos horrores da guerra. É bom dizer que, aqui, esta não é/foi a intenção. Do livro homônimo do irlândes John Boyne, O Menino do Pijama Listrado, fala de tudo ou de muito que o espectador adulto provavelmente já saiba ou tenha visto sobre a Segunda Guerra, mas não pelo ponto de vista utilizado nesta estória - o olhar de um menino de 8 anos. E como já mencionei acima, vamos lentamente seguindo o fluxo do roteiro, e mesmo sabendo tudo o que ocorre além do que o menino pode entender e adivinhando o final, não evitamos o choque quando a câmera escurece e os créditos começam a passar na tela. Vi muitos saindo do cinema sem dizer uma palavra com o colega, andando pensativos e cabisbaixos, entreolhando-se meio perdidos em sentimentos e confusos em pensamentos, aturdidos com o que acabaram de ver.

O Menino do Pijama Listrado mostra uma criança curiosa para saber o que as pessoas fazem numa fazenda próxima da sua casa, por que elas usam apenas pijamas listrados, o que queimam por lá para surgir no ar uma rotineira fumaça preta e por que a sua casa é invadida de vez em quando por um mal cheiro inconveniente, além de instigar a sua imaginação o fato daqueles vestidos em pijamas serem tão mal tratados pelos de sua raça. Todos esses fatos são pouco a pouco investigados pela criança. Mas a guerra alemã era então um mistério para a grande maioria do povo alemão comum, que acreditava que o governo tratava seus prisioneiros de guerra como hóspedes de colônias de férias. E é justamente um filme realizado pela propaganda nazista sobre os campos de concentração, apresentado ao seu pai em sua casa, que sela o destino do filho do oficial nazista. Encantado pela "qualidade de vida" dos presos de guerra, que os alemãs mostravam no filme, o menino, claro, decide usufruir desta "maravilha" com a ajuda do seu amigo que vive do outro lado da cerca de arames farpados.

A linguagem da inocência convence, assim como também é convincente o estupefamento da mulher do oficial, ao descobrir o que os alemães faziam nos campos de concentração, e acaba por culpar o marido por tais atrocidades, chama-o de monstro e pede o divórcio. Isso também é história. A maioria do povo alemão via de suas casas um governo patriótico e racional, que defendia os interesses da nação com lealdade e honestidade, que tratava a todos com a devida humanidade e defendia apenas a justiça ao tentar liquidar os judeus do solo alemão, pois, afinal de contas, para os nazistas, eles estavam tomando as suas terras, seus empregos e assaltando o futuro da nação. E foi assim que o chanceler cujo nome todos já sabem recrutou jovens, velhos e crianças e formou a base do nazismo. Diante de tal propaganda de governo, com o poderio alemão na época, bem maior no início da guerra do que o da Inglaterra, a grande força bélica européia, e com uma relativa dose de ignorância ou inocência, ficava difícil não ser um alemão patriótico. Para muitos que tinham acabado de viver um período de experiência democrática, entre 1919 e 1933, com a Repúbica de Weimar, não era fácil acreditar, nem mesmo suspeitar, que a história alemã estivesse sendo refeita sobre estatísticas tão atrozes e criminalmente inacreditáveis.

O filme deixa reverberando o que a falta de diálogo, esclarecimentos, clareza dos fatos, o que escondimentos, pactos e não-ditos são capazes de fazer com o destino de pobres inocentes, sobretudo as crianças. A opção pela ignorância ou a sua manutenção traz conseqüências fatais. Mas também fica reverberando na consciência os sigmas da vida, que surgem para sinalizar tanto novos caminhos quanto antigos erros, recorrentes demais para continuarem sendo cometidos. Trazendo a estória de Bruno para mim, penso em quantas vezes me deparei com situações em que a experiência me levou a um holocausto pessoal, por força de uma escolha equivocada, cometida por uma propaganda enganosa. Na falta de lucidez para o que está se passando ao meu redor, deixo o essencial passar desapercebido e me apego ao quimérico num círculo de aprendizado que já tenho condições de evitar. Essa é enfim uma mensagem que se pode ter do filme, se colocarmos as nossas experiências pessoais nos roteiros do que assistimos. Propicie aos outros a lucidez que voc quevocê quer para si mesmo.


video